Criméia, o retorno da guerra fria

A Criméia se tornou alvo de uma disputa muito comentada na imprensa nas últimas semanas. Estados Unidos e Europa medem forças com a Rússia para tentar manter a região, recentemente anexada pelos russos, na Ucrânia. Esse jogo de ameaças, sanções e movimentação militar das grandes potências ocidentais e da Rússia nos fazem voltar no tempo, mais especificamente ao período da guerra fria, onde os americanos e os soviéticos disputavam a hegemonia político-militar mundial sem se confrontarem militarmente de maneira direta. A guerra fria terminou com a queda da União Soviética, mas está retornando, pelo menos temporariamente, com este caso envolvendo a Criméia.

A história da Criméia nos conta que conflito territorial não é novidade naquela região. A República Autônoma da Criméia, como é denominada nos dias de hoje, já foi, no passar dos séculos, dominada por: gregos, romanos, invadida e ocupada por godos, hunos, bizantinos e mongóis. Durante a idade média, foi palco de batalha entre os rivais venezianos e genoveses. Veneza fundou e fez prosperar algumas cidades na costa da Criméia até que os genoveses conquistaram as cidades, que permaneceram fortes comercialmente até o século XV, quando o Império Otomano conquistou a região. No século XVIII, a região, finalmente, foi anexada à Rússia.

Com o fim do Império Russo no começo do século XX, a Criméia passa a ser parte da União Soviética, sendo administrativamente ligada à República Socialista Federada Soviética da Rússia. No entanto, em 1954, Nikita Khrushcov, poderoso líder político da União Soviética, decide passar a região para a Ucrânia, o que significava uma mudança apenas administrativa, pois os ucranianos também faziam parte da União Soviética. O problema desta transferência só veio a ocorrer com o fim do comunismo. Após a queda da União Soviética, a Criméia virou parte da então independente Ucrânia, o que causou enorme insatisfação na população de maioria russa. Este foi um dos motivos usados por Moscou para anexação do território em questão.

Além da população de origem russa, na Criméia fica uma importante base militar da Rússia, o que torna ainda mais evidente a razão do interesse de Moscou por esta região bastante estratégica. Interesse e medo de perder uma região que desde do século XVIII foi russa de um modo ou de outro. Mesmo com o fim da União Soviética, a Ucrânia se manteve sob influência de Moscou, não existindo motivos para qualquer conflito pela região. A prova disso é que mesmo fazendo parte de uma Ucrânia independente, a Criméia abrigava uma importante base militar russa. Todavia, com a recente aproximação do governo de Kiev com a União Européia e o consequente afastamento do governo moscovita, a Rússia não quis arriscar perder uma região tão estratégica.

Com a crise ucraniana instaurada e as manifestações que resultaram na queda do governo, foi estabelecido o cenário para anexação da Criméia. A queda de um governo democraticamente eleito e o anseio da população local de voltar a ser parte da Rússia se tornaram o motivo que os russos precisavam para manter a região sob seu controle. Como o governo deposto era pró Rússia e o novo governo a favor da União Européia, Moscou corria sérios riscos de perder influência sobre a região.

Diante deste cenário político, a Rússia anexou a Criméia e arca agora com as sanções das potências ocidentais que apoiam o novo governo de Kiev e são contra o fracionamento do território ucraniano. No entanto, como na guerra fria, provavelmente não haverá enfrentamento militar entre potências militares, o que poderia causar uma guerra nunca antes vista neste planeta. O mais provável é que aconteçam sanções políticas e econômicas de ambos os lados (com a Rússia sofrendo bem mais neste quesito) e ameaças militares que não deverão ser cumpridas. Apesar de toda esta tensão, a Criméia já faz parte do território russo e o governo moscovita não deve esticar mais a corda, pois corre o risco dela arrebentar. Ou seja, esta nova guerra fria deve se desenvolver somente neste conflito mesmo.

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