Falando sobre a copa e outras coisas

No texto "A copa do mundo é nossa" falei sobre os protestos que algumas pessoas estão fazendo contra a copa do mundo aqui no Brasil. Neste texto agora, a copa é só mais um exemplo de um dos tantos problemas que atrapalham nosso desenvolvimento, a cultura do improviso. A cultura do improviso é irmã e anda de mãos dadas com a corrupção e o nosso “jeitinho brasileiro”, exterminando nossas oportunidades de nos tornarmos uma sociedade melhor.

Vamos ao primeiro exemplo da cultura do improviso, a copa irá começar em menos de um mês e a grande maioria das obras previstas para melhorar a infraestrutura das cidades sedes ou não começou ou não terminará a tempo do evento. Além disso, os estádios custaram bem mais do que o previsto e só estão sendo entregues este ano, em cima da hora. Alguns ainda estão sendo inaugurados. Ou seja, ao invés das cidades brasileiras serem arrumadas para a copa (mobilidade urbana, aeroportos, segurança, etc.), deixando para a população uma cidade melhor do que era antes do evento. O que vai acontecer vai ser um improviso (feriados, fechamento de ruas, esquema extraordinário de segurança) que durará somente o período da copa, pois quando esta acabar, volta tudo ao que era antes. Vamos torcer para que pelo menos os estádios fiquem para posteridade, pois o Engenhão, construído para o Pan de 2007, com menos de sete anos já teve que ser fechado por problemas estruturais, mostrando que foi construído de improviso, como é o normal aqui na Terra de Santa Cruz.

Deixando a copa um pouco de lado, esta semana vai ser inaugurado um trecho da Ferrovia Norte-Sul (trecho entre Palmas e Anápolis). Esta ferrovia teve seu projeto iniciado há 27 anos, o que já demonstra plenamente o jeito brasileiro de fazer obras públicas, que é empurrando com a barriga o máximo possível, seja para facilitar a corrupção, seja por falta de verbas (sugadas pela corrupção), ou ainda, simplesmente, pela cultura de deixar para última hora mesmo. Mas, o mais impressionante é que, após tanto tempo, a obra vai ser inaugurada de maneira improvisada! Isto porque, não há operador ainda. A ferrovia vai ser aberta, mas ainda vai demorar para começar a funcionar. Como é bem claro se observar, planejamento aqui não é a palavra de ordem.

Outro caso gritante de falta de planejamento ou de sobra de improviso, é o da Refinaria de Abreu e Lima. A refinaria deveria custar US$ 2 bilhões e operar a plena carga a partir de 2011. No entanto, já custou mais de US$ 18 bilhões e até agora, 2014, não começou a operar. Como um planejamento pôde ser tão mal executado? A cultura do improviso (que muitas vezes está de braço dado com a corrupção) responde.

A crise de água em São Paulo também demonstra como as coisas no Brasil são feitas de improviso. Li certa vez que quando foi construído o novo sistema Cantareira nos anos 60/70, foram realizados vários projetos. Um deles, bastante caro e complexo, resolveria de uma vez por todas (ou perto disso) o problema de abastecimento de água de São Paulo. Outro, mais barato e mais fácil de realizar, resolveria o problema por algum tempo. Qual foi o escolhido? A resposta está na crise de abastecimento que a região vive. Além disso, muita gente diz que esse problema já era esperado há mais de dez anos, mas os responsáveis não quiseram fazer um planejamento sério para resolver a situação, preferiram esperar o problema se tornar uma crise de grandes proporções para poder improvisar, como sempre acontece no nosso país.

Como visto, improvisar, remendar, resolver de maneira apenas momentânea é sempre a solução dada por aqui. Atrasar obras indefinidamente também. No Brasil, uma obra custa muitos milhões de dólares e dura décadas. Esta mesma obra, em alguns outros países, pode custar muito menos que isso e é realizada em um prazo muito inferior. Como isso é possível? Novamente a cultura do improviso responde.

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