A não-reforma política

Essa semana a Câmara  de Deputados colocou em votação uma série de mudanças que poderiam constituir uma reforma política para melhorar o sistema brasileiro. Mas, ao final do primeiro turno de votações, quase nada foi aprovado e tudo ficou quase na mesma. A única mudança significante foi o fim da reeleição para o cargo de chefe do executivo. Embora, o melhor fosse o fim da reeleição para os cargos do legislativo também (ou, pelo menos, um limite de dois mandatos consecutivos), o fim da reeleição para o executivo foi alguma coisa, muito pouco é verdade, mas alguma coisa.
De resto, nenhuma mudança que mereça destaque. Continuam as coligações de partidos, o sistema proporcional de voto para deputados e vereadores e tudo o que já existia antes e merecia mudança. O sistema proporcional de eleição (leia aqui como funciona), por exemplo, é interessante e pode funcionar muito bem, mas para isso é essencial que existam duas condições básicas: o eleitor precisa saber como funciona todo o processo; e os partidos políticos têm que ter uma ideologia definida. No Brasil nenhuma destas condições existem.

Aqui, a grande maioria das pessoas não tem idéia como funciona o sistema proporcional de eleição e, assim, essas pessoas não sabem quem estão elegendo como seus representantes. Além disso, muitos partidos políticos têm uma única ideologia, chegar ou se manter no poder (leia aqui sobre o assunto). Então, partidos socialistas fazem coligações com liberais, partidos que tem minorias como bandeira se juntam a partidos conservadores religiosos e assim por diante, causando uma confusão que é muito difícil de qualquer eleitor entender. Em consequência desta bagunça toda, o eleitor socialista pode votar em um candidato socialista e eleger um liberal ou o eleitor liberal pode votar em um liberal e eleger um socialista.

É criado, com este cenário, o anti-representante, ou seja, o eleitor acaba elegendo alguém que não queria eleger e que briga contra seus interesses no governo. Não é à toa que os brasileiros não se consideram representados pelo sistema atual. E, repetindo, isto não acontece porque o sistema proporcional é ruim (ele pode ser muito bom), mas simplesmente porque não é o melhor sistema a ser aplicado na atual realidade brasileira.

Com as recentes tentativas de mudanças realizadas pela Câmara na política brasileira, que não mudaram quase nada, isto é, uma não-reforma, o Brasil vai continuar com a mesma crise de representação, que dificilmente será alterada sem que o povo aprenda a votar corretamente e excluir do poder políticos incompetentes e corruptos. Ou seja, a mudança terá que vir de todos os brasileiros e não só dos políticos, primeiro votando corretamente para que as pessoas certas cheguem ao Congresso e possam fazer as mudanças necessárias. Por ironia, quando isso acontecer, muitas das coisas que precisariam ser mudadas, como o sistema eleitoral, talvez nem precisem mais.

Um comentário:

  1. Estamos passando um período político dos mais imorais que se viu, sob a batuta de um testa de ferro dos interesses empresariais disfarçado de bom cristão. O típico estereótipo do político brasileiro ordinário.
    A reforma política que era demandada pelas ruas foi estuprada e desfigurada por esses parlamentares esdrúxulos que formam a legislatura mais conservadora e reacionária desde 1964.
    E tudo isso sendo assistido passivamente por uma chefe de executivo sorumbática na sua melancolia.
    O Brasil está entregue nas mãos de ratos.

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